Construída sobre o Rio Mocambo, Via Barradão ameaça Canabrava

A época de chuvas deu a largada em Salvador, e urge que tenhamos um olhar atento e crítico às obras propostas para a cidade que, se mal planejadas, podem aniquilar ainda mais rios e matas locais e piorar a situação de alagamentos, desmoronamentos, impermeabilização do solo e de negligência com comunidades de baixa renda, que são relocadas em áreas afastadas por gestores públicos, porém suas más condições urbanísticas ficam invisíveis a moradores e moradoras da região central. Na sexta-feira, 20 de abril, os soteropolitanos acordaram com uma chuva intensa que os acompanhou ao longo do dia, e dezenas de fotos e vídeos de diversas áreas alagadas da cidade foram trocadas. Entre os registros, estavam as corredeiras formadas nas laterais da comunidade de Canabrava, cuja área foi extremamente prejudicada com a recente construção da Via Barradão. No início de abril, integrantes dos Canteiros Coletivos estiveram em Canabrava com representantes do SOS Vale Encantado e do Viva o Parque de Pituaçu, especialistas em recursos hídricos e gestão ambiental e moradores de bairros centrais de Salvador para conhecer os impactos da Via Barradão na vida dos moradores. Além de destruir significativas áreas de Mata Atlântica secundária, a avenida – construída especialmente para levar torcedores ao estádio de futebol com mais conforto – passa por cima do Rio Mocambo.

Com a pista da Via Barradão construída sobre o leito do rio, as fortes chuvas formam corredeiras entre a pista e a comunidade, iniciando um processo de assoreamento na beira de algumas casas que estavam mais próximas dessa área. Este é o começo de um problema que vai ficar ainda mais sério. Mas isso não está acontecendo por falta de aviso. Moradores e moradoras da região contaram com a mobilização de integrantes da Associação Cultural e Esportiva da Comunidade de Canabrava (ACECC), que apresentou laudos ao Ministério do Meio Ambiente comprovando as irregularidades da obra Via Barradão, mas os argumentos foram ignorados. Inclusive, no dia do lançamento da obra, moradores foram falar diretamente com o governador Rui Costa sobre seus receios de passar por enchentes e más condições de mobilidade por conta da nova configuração do bairro. “Vão culpar as pessoas por morarem ali. Mas as pessoas que moram ali são pobres e já foram expulsas de suas áreas na década de 1970. A incidência de alagamento nessa região era menor. Alagava a cada 10 anos. Como a pista ocupou a planície de inundação à esquerda do rio, resta para o rio inundar a área onde mora gente. A pista piorou a situação das pessoas. Portanto, o governo agora é mais responsável ainda por elas”, afirma um morador que preferiu não se identificar.

De acordo com especialistas, todas as avenidas de vale da cidade alteraram fortemente as matas ciliares e os fluxos hídricos naturais dos cursos d’água.  E a Av Mário Sergio (Via Barradão – Paralela) deixou claro, mais uma vez, o modelo de projeto de via concebido pelo poder público.

Análise comparativa entre imagens do ano de 2006, antes da via, e 2017, durante a implantação da via:
A implantação da Via Barradão promoveu cortes e aterros volumosos, sobre a planície de inundação do rio Mocambo, reduzindo a sua calha natural. Estas alterações colocam em risco a vida dos moradores nas margens da via.
Além disto, a supressão de fragmentos florestais da Mata Atlântica, em estágio médio de regeneração, contribuiu para a instalação de processos erosivos sobre os taludes, com assoreamento do que restou da calha do rio. Confira detalhes na imagem a seguir.
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