Dia do Meio Ambiente: motivos para celebrar

Acordei nesta terça-feira chuvosa com um sopro de felicidade. E confesso, foi recebido pelo celular. Acessei a internet antes mesmo de sair da cama (um dos males do nosso tempo). Por sorte, deparei com o comentário de uma querida amiga que me marcou em um post dizendo “Débora, lembrei logo de você! <3”. Tratava-se de uma reportagem da BBC Brasil com o seguinte título: Crianças tomam conta de terrenos baldios e os transformam em jardins, hortas e áreas de leitura. Meu coração saltou de alegria. Como me fez bem ler isso. O texto conta que, há mais de 20 anos, o peruano Rogelio Ramos Huamán começou a cuidar de terrenos baldios perto de casa, e pouco a pouco foi convidando crianças da vizinhança para criar seus próprios jardins. Em questão de meses, os jardineiros mirins encheram a comunidade de pequenas áreas verdes, até criarem um bosque em uma área de 120 metros quadrados (podemos imaginar o espaço como o de uma boa casa com um bom quintal). A experiência de Huamán virou o livro Tierra de Niños (TiNi, ou Terra de Crianças) e se converteu em uma “fórmula mágica” de semear o verde em áreas urbanas degradadas replicada pela Ong Ania, que busca estimular o desenvolvimento sustentável por meio do contato das crianças com a natureza. Magnífico! Pensei: este sim é o tipo de notícia que quero receber no Dia Mundial do Meio Ambiente – e em todos os dias da vida.

Não demorou para que eu recebesse um bombardeio de informações tristes e lamentosas sobre tudo o que o “ser humano”, esse ente “quase mítico”, faz de errado com a natureza. Mas ignorei. Sabe por quê? Não há novidade nas péssimas notícias. Elas desagregam as pessoas, e entristecem e enfraquecem nossa alma. Saber da Tierra de Niños me fez praticamente levitar de alegria ao acordar. Porque acredito muito nisso: na criatividade, na dedicação e no amor das pessoas que se prontificam ao fazer coletivo. Se não fosse Huamán, talvez as crianças de seu bairro (que hoje devem ter cerca de 30 anos ou mais) não tivessem tido uma das experiências mais fabulosas da infância: o contato com a natureza. E também não teriam aprendido a se juntar para transformar seu próprio bairro em um lugar bonito e mais seguro. Em 23 anos, a Ong Ania já envolveu cerca de 20 mil crianças em seis países, espalhando jardins verdes em várias cidades! Genial! O que mais me surpreende é como esse tipo de mensagem demora tanto pra chegar! Inspirações como essa merecem se espalhar e penetrar em nossas células como o ar que respiramos.

Fica a reflexão. Diante da avalanche de notícia tristes e desanimadoras dos feitos tristes desse ente quase mítico que se chama “ser humano”, será que o Dia Mundial do Meio Ambiente está fadado a ser um dia de lamentações? Ou poderíamos fazer dele um dia de celebração? Fico com a segunda opção. Explico porque. Quando pensei em reunir pessoas para plantar em áreas públicas degradadas de Salvador, em 2012, não fazia ideia do tanto de coisa linda que as pessoas estavam fazendo ao redor do mundo. Virei um ímã de notícias sobre projetos incríveis, que há seis anos não param de chegar em minhas caixas de mensagens. Em 2014, arrumei um jeito de ir a Todmorden, uma pequena cidadezinha ao norte da inglaterra, para ver de perto o projeto Incredible Edible (Incrivelmente Comestíveis), que repetidamente as pessoas compartilhavam comigo nas redes. A iniciativa inglesa consiste na ideia do plantio coletivo de canteiros comestíveis pela cidade toda – em frente à delegacia, à escola, ao redor do hospital, na beira do rio… -, e qualquer pessoa, mesmo que não tenha plantado, pode colher verduras, legumes e frutas. Além disso, existe uma rota de visitação em que voluntários mostram todos os canteiros já criados, com obras de arte que vão contando como as flores são importantes para atrair abelhas, e as abelhas, para manter a diversidade de plantas… E há poesia e arte em cada canto da cidade, compondo os belos e perfumados jardins. Vi tudo de perto e pude comprovar que todos aqueles posts nas redes sociais e as mensagens que eu recebia eram a mais pura verdade.

Em 2016, tive a chance de conhecer outros dois projetos dos Estados Unidos, com os quais eu flertava desde 2012. O Depave (do verbo despavimentar, em inglês), situado em Portland, Oregon, propõe a retirada do excesso de concreto de estacionamentos de escolas para transformar essas áreas em jardins e hortas. Visitei alguns pontos, incluindo uma escola para crianças bem pequenas, cheia de canteiros comestíveis e floridos, com girassois, tomateiros, alfaces e repolhos enormes em um espaço verde lindo e super educativo, que antes era estacionamento. A organização consegue hoje medir o aumento da absorção de água da chuva pelo solo na cidade por conta dos milhares de metros quadrados de concreto já retirados para dar lugar a jardins. Logo depois, fui a Nova Iorque, mais precisamente ao bairro do Brooklin, conhecer a 596 Acres (que significa 596 Hectares), uma organização formada por advogados que orientam moradores e moradoras da cidade a ocupar terrenos ociosos – públicos ou privados – com a proposta de transformá-los em hortas e jardins. Tratava-se de um legislação municipal então pouco conhecida, que precisava ser colocada em prática na cidade. Hoje, o mapeamento dos terrenos já se expandiu para NY inteira, assim como as áreas verdes criadas. Para orientar na ocupação dos terrenos, a organização instala placas em frente aos terrenos com todos os contatos dos respectivos donos. Visitei a South Brooklin Children’s Garden, uma horta para crianças no bairro onde nasceu o projeto, com a fundadora da Ong Paula Segal. E ela disse: “Nunca vim pra cá. Não conheço a maioria dos lugares. Minha função é facilitar o processo de ocupação dos espaços”. Perguntei a ela como tinha certeza de que isso acontecia. E ela disse: “Simplesmente acontece”.

A cada história dessa, meus olhos brilham, meu pulmão se enche de ar e minha vida passa a fazer mais sentido. Em 2015, tive o prazer de conhecer Marco Clausen, responsável por ocupar um terreno de 6 mil metros quadrados na capital alemã de Berlim com o projeto Prinzessinnengarten. Inpirados em hortas urbanas de Cuba, ele e um amigo mapearam um espaço bem degradado próximo ao ex-muro de Berlim, com solo extremamente compactado e cheio de pedregulhos, e transformaram em uma floresta com produção constante de alimentos, no qual recebem centenas de voluntários e produzem comida com tudo o que é colhido no local. O espaço virou um ponto de encontro cultural e orgânico, e hoje é o projeto de vida desses dois amigos. Tivemos a oportunidade de organizar um bate-papo com Clausen em Salvador no Instituto Goethe, e de levá-lo a uma de nossas ações na comunidade do Gantois. Clausen andava por Salvador maravilhado com a vegetação exuberante da Mata Atlántica, com árvores frondosas e grande variedade de plantas, e, quando sabia que algumas plantas atingiam um bom tamanho em questão de semanas ou meses, dizia: “Lá na Alemanha demora muito mais!”. Além de tudo, existe o recomeço dos plantios após o período de neve, que mata boa parte das plantas. Clausen ficou maravilhado ao saber que tudo nasce tão rápido e fácil no Brasil, e sem as intempéries da neve.

Oh, tantas outras iniciativas podem ser compartilhadas! O Hortelões Urbanos, grupo com mais de 70 mil membros que compartilha informações sobre plantio de alimentos no meio da cidade de São Paulo. Ainda na capital paulista, tem a Horta das Corujas, liderada pela jornalista Claudia Visoni, já recuperou nascentes com o reflorestamento de um terreno no meio do bairro altamente urbanizado da Vila Madalena. E o grupo Flores no Cimento , que distribui vasos reutilizados com plantas por postes da cidade e planta árvores e alimentos em praças. E a organização Cidades sem Fome , que cria hortas imensas em bairros periféricos, gerando alimento e renda a moradores e moradoras locais. No Rio, a linda mestre cuca Regina Tchelly inspira o uso de todas a partes dos vegetais na gastronomia, criando pratos deliciosos, nutritivos e econômicos com a marca Favela Orgânica. Além disso, ela incentiva a criação de hortas em comunidades da zona sul da capital fluminense, de forma que as pessoas colham seus próprios alimentos. Essa mulher, que um dia foi empregada doméstica, é hoje referência para vários grandes chefs e já girou o mundo levando suas sabedorias. O que mais posso citar? A empresa de delivery Saladorama, também criada no Rio, que gera renda em comunidades de baixa renda através da produção de verduras que são transformadas em pratos de comida saudável a preços acessíveis. Lembrei também de um incrível projeto de Los Angeles, do norte-americano Ron Finley, que começou a plantar nas ruas das periferias da capital californiana ao perceber que as pessoas precisavam sair de suas casas e viajar por pelo menos 45 minutos para conseguir comprar tomates frescos. Ou seja, comunidades periféricas não tinham acesso a comida saudável (situação parecida com a que fez surgir a Saladorama, criada por Hamilton Henrique, que esteve recentemente em Salvador contando sua emocionante história).

Na capital baiana, desde quando nasceram os Canteiros Coletivos, observo as ruas da cidade com olhos atentos, e percebo o crescimento constante de pequenas iniciativas de hortas, jardins, plantios em canteiros. Novos projetos surgiram, como o Hortas Urbanas Salvador, com uma grande horta cuidada por voluntários em um ex-terreno ocioso na Pituba, e o Dus Quintais, que estimula a criação de hortas orgânicas no Santo Antônio Além do Carmo. Além disso, estão surgindo dezenas de novas (ou recuperadas) áreas verdes em bairros que vão de Plataforma a Itapuã, e parte deles estamos começando a mapear no projeto Mapeamento Afetivo, cuja primeira publicação foi feita na semana passada aqui neste site. Nosso desejo, nos Canteiros Coletivos, é poder partilhar o máximo de experiências possíveis de criação de espaços verdes na cidade. Porque é a partir desse sopro de alegria e esperança que as pessoas se sentem motivadas a transformar seu lugar com as próprias mãos.

Eu passaria dias listando a infinidade de lindos projetos e seres humanos – ah estes seres! – transformadores que acolhem a ideia de “semear” como uma missão de vida. É uma gente ciente de que é parte do meio ambiente, e de que o ecossistema deste planeta nos oferece toda a tecnologia e sabedoria necessária para revertermos impactos ambientais negativos e fazermos proliferar ações essenciais para a manutenção da vida humana no planeta (não se engane, o planeta pode viver sem a gente). E não pense que não há dificuldades no meio do caminho. Na maioria dos casos, a gestão pública local não apoia ou até atrapalha. Mas a galera dedo-verde é persistente.

Apesar da aparentemente insignificante data comemorativa do meio ambiente, posso afirmar a existência de um fenômeno altamente inspirador e tocante, que se desenrola 365 dias por ano, em inúmeros países: Milhares de pessoas comuns dedicando suas vidas a desenvolver projetos incríveis para recuperar rios, florestas, a pureza do ar, fauna, flora, grupos indígenas e quilombolas, sementes crioulas, alimentação orgânica, agroecologia, fundo de oceanos, biomas em extinção. Pessoas extremamente cientes da voracidade das indústrias e da urbanização desenfreada, e da necessidade de se repensar estilos de vida, consumir menos, valorizar espaços verdes, reconectar com a natureza, usar recursos naturais com inteligência, e criar novas formas de gerir comunidades, cidades e, por que não?, países. São os multiplicadores de microrrevoluções inspiradoras. Verdadeiros guerrilheiros verdes.

Pra finalizar, gostaria de deixar a indicação do filme documentário Demain (ou Tomorrow, que significa “Amanhã”), no qual você poderá conferir dezenas de iniciativas incríveis ao redor do mundo que vão mudar seu conceito de vida em sociedade. E também de Dia do Meio Ambiente. Não há como não se emocionar. Se não houver sequer uma manifestação de uma lágrima tentando cair de um de seus olhos, por favor, reserve mais tempo para estar em contato com a natureza. Você está precisando. O filme está disponível no Netflix. Vale a pena ver mais de uma vez, pois oferece muitas informações preciosas.

Bom, o Dia Mundial do Meio Ambiente está quase acabando no momento da publicação deste texto, mas a vida continua e tenho certeza de que muitas informações aqui podem ser inspiradoras para uma nova visão de “estar no mundo”. Sejamos felizes.

Débora Didonê, jardineira, permacultora e criadora dos Canteiros Coletivos