Mapeamento afetivo: Em Itapuã, uma praça é mantida através de rifas

Acompanhe o novo espaço da série Mapeamento Afetivo de áreas verdes transformadas e criadas por moradores e moradoras da cidade de Salvador. Trata-se de uma iniciativa dos Canteiros Coletivos, com a proposta de partilhar estratégias locais de ocupação criativa de áreas públicas e de inspirar as pessoas a fazer o  mesmo próximo de casa ou do trabalho. O levantamento inicial está sendo realizado com apoio voluntários e voluntárias que vão até o local para conhecer as intervenções e seus autores. A entrevista a seguir, com Antônio Gamboa, um dos criadores e cuidadores da Praça Teodoro Gama, de Itapuã, foi feita pela jovem francesa Marie Paul.

Marie Paul: Por que este lugar foi escolhido para ser recuperado?
Antônio Gamboa: Antes de ser uma praça, este lugar foi há muitos anos um terreno de descarte de entulho, móveis velhos e pedaços de árvores podadas. Era sujo e inseguro. E eu e meus vizinhos sentíamos a necessidade de ter um espaço de lazer, entretenimento e preservação da natureza em nosso bairro.

MP: Como o local é mantido?
AG: Nos organizamos como multiplicadores. Cada membro da Associação Amigos da Praça se responsabiliza por conscientizar o maior número de pessoas sobre a importância de se apoiar e preservar coletivamente o que já foi feito no espaço. Além disso, somos responsáveis pela limpeza, jardinagem, manutenção e pintura. Mesmo sem ter um registro legal, a Associação tem se mostrado organizada e eficiente em seu propósito.

MP: Quais os recursos disponíveis e como são captados?
AG: Nossos recursos vêm de doações e rifas. Nas rifas, vendemos 100 números e sorteamos um bom prêmio. Assim, conseguimos apoio de pessoas que nunca pisaram na praça. Em ambos os casos, procuramos sempre fazer a prestação de contas de forma clara, assegurando aos apoiadores o real destino de sua ajuda. Mas a maioria das doações ainda é feita por membros da Associação.

MP: Por que a decisão de cuidar de uma área que é pública?
AG: Esse espaço, hoje praça, teve como precursor um pequeno grupo de moradores que em pouco tempo estaria sensibilizando toda uma comunidade em prol de um bem comum. Sem apoio algum da prefeitura, escreveu uma história que servirá de exemplo de cidadania e união, provando que somos capazes não apenas de transformar espaços, mas a consciência das pessoas.

MP: Como é possível contribuir com o espaço?
AG: Toda ajuda é bem vinda. Já distribuímos uma circular impressa para conscientizar outras pessoas sobre a necessidade de apoio, tentamos criar um carnê mensal com valor simbólico e chegamos a organizar eventos para arrecadar fundos. Mas o que funcionou mesmo até agora foram as rifas. Qualquer interessado em apoiar a causa pode falar com a comunidade frequentadora do espaço, que conhece bem sua história e é comunicativa.