Não foi acidente. Foi negligência.

Compartilhamos o texto publicado nesta sexta-feira (23) nas redes pelo internauta Franciel Cruz. Lembrando que, por parte dos Canteiros, a crítica não é partidária, e sim de gestão das árvores de Salvador. Somos a favor de transparência e de um Plano de Arborização Urbana que regule a vistoria de nossos exemplares arbóreos e as ações necessárias para salvá-los e garantir qualidade de vida à população, inclusive, garantir sua vida. A negligência da qual falamos é da total falta de políticas para a gestão da vegetação urbana. A tragédia que aconteceu hoje pode se repetir, e cortar árvores não é de forma alguma a solução. ‪#‎cortarnãoésolução‬

QUEM MATOU BERENICE FOI A NEGLIGÊNCIA

Por Franciel Cruz

É muito fácil ser um bom profeta na Bahia: basta apostar no absurdo. A possibilidade de erro é extremamente remota, especialmente neste contaminado & raso ambiente de disputa polititica (é polititica mesmo, revisor sacana), travestido de indignação. Aliás, se, como sentenciava o bardo William Burroughs, a linguagem é um vírus, o debate (pseudo) ideológico aqui tá com infecção generalizada.

Há poucos instantes, por exemplo, uma árvore caiu na Avenida Tancredo Neves e matou Berenice Ferreira Rodrigues, que aos 80 anos ainda era obrigada a ir a pé de Pernambués até o local da tragédia para sobreviver vendendo café e lanche.

É, claro, cristalino, óbvio ululante que o responsável pelo infortúnio que vitimou a batalhadora senhora é a Prefeitura de Salvador, que não fez o que deveria. Porém, os defensores do alcaide já se apressam em tirar o dele da seringa. E não só isso. Quase que comemorando, já colocam a culpa nas pessoas que reclamavam da poda e do corte de árvores na cidade.

Ora, ora e ora. Me façam um caldo de cana contaminado misturado com cachaça de Santo Amaro da Purificação que prejudicará menos minha saúde do que estes malabarismos argumentativos.

Todo cidadão tem o direito de reclamar de ações e omissões da prefeitura e/ou do governo. É um direito inalienável. E mais. Não me consta que o prefeito tenha deixado de derrubar uma mísera árvore por conta dos protestos aqui & alhures. Ao contrário. O corte prossegue célere e, não raras vezes, sem as devidas explicações. Não sou botânico nem tenho nenhuma outra especialização em áreas afins para opinar se as derrubadas têm sido corretas e obedecem aos padrões técnicos. Porém, o que sei é que cabe ao Poder Público explicar suas ações a quem lhe sustenta com o suado dinheiro do imposto.

E antes que o carlista apressadinho venha fazer beicinhos, destaco logo que o governo do Estado pratica semelhante polititca. Aliás, na Avenida Paralela chega ao ponto do paroxismo. Enquanto árvores são derrubadas e /ou retiradas para a construção do Metrô, um monte de concreto em homenagem a Luís Eduardo Magalhães continua lá, firme, forte e impunemente. O cimento vale mais do que o verde, mesmo o cimento que reverencia a memória de pseudoadversário. Isto não deixa de ser tristemente simbólico.

Pior do que isso só este alvoroço em botar logo a culpa nos contribuintes pela morte de Berenice Ferreira. Não, amigos, quem matou Berenice não foram os que protestam, com ou sem razão, contra a derrubada de árvores, mas sim o poder público municipal, que foi omisso e não fez o que lhe cabia. Ela foi morta pela negligência governamental.

A propósito, há coisa de uma década, o pai de um queridíssimo amigo também foi vitimado fatalmente pela queda de uma árvore. A tragédia ocorreu no Dique do Tororó. A família, porém, não culpou quem reclamava dos cortes de árvores, não. Apenas fez o correto. Processou a gestão municipal de então e ganhou na justiça.

Portanto, um conselho. Deixem para enfiar suas falsas indignações nas urnas. Agora, respeitem ao menos a dor dos familiares de Berenice.

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