A transformação que os olhos não vêem

Nem tudo se mede com números. Muita coisa, aliás, só pode ser medida através de uma observação cuidadosa e sensível. Quando falamos em transformação do espaço público, não falamos necessariamente no ato absoluto de instalar um jardim e uma mobília numa praça. Ou no plantio de um certo número de árvores em um canteiro central. Falamos, isso sim, na mudança do olhar de quem passa por um lugar no qual dificilmente prestaria atenção. Falamos em fazer perceber o que antes era imperceptível. Foi com essa intenção que os Canteiros Coletivos surgiram quando lançaram a proposta de ocupar o canteiro do Vale do Canela há seis anos. Tratava-se de um terreninho aparentemente inútil, cheio de lixo e entulho, com um ficus solitário no meio e paredes mal cuidadas ao redor. Hoje, é uma pequena área verde. Como todo espaço público de Salvador, ainda tem problemas estruturais. Mas tornou-se verde, tornou-se nosso, e ganhou uma cara.

Fotos de antes e depois? Número de plantas colocadas ali? Pessoas envolvidas? Ora, isso tudo é tão relativo. Temos dezenas de “antes” e “depois”. Quem mexe no espaço público, quem observa e usa o espaço público, sabe que ele se transforma continuamente. Se ele era praticamente seco e agora é um espaço verde que atrai pássaros e insetos, contribui para a absorção da água da chuva, para a purificação do ar e para o bem-estar de quem passa, pouco importa saber quantas plantas foram ou serão plantadas ali. E as pessoas envolvidas são incontáveis. Neste último sábado (9), em nossa ação de pintura e plantio em clima de São João, éramos cerca de 10 a 15 pessoas ocupando o espaço. Mas e todas as pessoas que atravessaram o canteiro? E os doadores de tinta que não foram? E as pessoas que desceram pra falar conosco? E todos que nos apoiam no Laboratório Bom Exemplo? E todos que compartilham o dia da ação nas redes sociais? Somos muitos e muitas.

A transformação da qual falamos é o ato de ressignificar relações que permitem uma nova forma de habitar este espaço. E consequentemente o ato de habitar um espaço que, a cada nova intervenção, ganha uma nova cara, uma nova marca, as digitais afetuosas de uma pessoa que se sentiu atraída pela ideia de estar ali coletivamente, e usar sua própria criatividade para chamá-lo também de seu. Quando estamos neste canteiro, as pessoas que atravessam o Viaduto da Padre Feijó param para nos observar ali de cima, curiosas. Algumas abanam, outras gritam uma palavra de incentivo, outras tiram fotos, outras sorriem. Sua forma de passar nesse Viaduto muda. Este canteiro, que antes não era nada, torna-se atraente para os olhos. Quando estamos neste canteiro, pessoas mudam seu rumo e param para falar com a gente. Seu Pepe da Paz, a moça Jeane, a dona Almerinha que mora ali perto, pessoas que nem sabíamos que existiam, chegam, se apresentam, participam e interagem. Uma senhora passa por nós no viaduto e faz um discurso sobre “ah! se a cidade toda fosse assim”, referindo-se à arte sendo produzida no muro. Ela fala de seus sonhos e vai embora, aliviada por ter contado a alguém.

Dona Jovelina, dona do bar ali perto, sempre nos recebe com um grande sorriso. Convidei-a para ver a orquídea que se abriu no canteiro e ela desceu toda faceira e, de quebra, entrou em nossa foto coletiva. Ela plantou conosco uma muda que, desde 2012, cresce bonita e saudável no espaço. E toda vez que nos encontramos, celebramos a existência e persistência dessa planta em um terreno público tão mutável. O senhor do bar ao lado do de dona Jovelina também nos cumprimenta com alegria, e pergunta como vão as atividades. Poxa, não lembro o nome dele. Mas o que importa? Nós nos lembramos um do outro e conversamos sorrindo um para o outro porque sabemos o que nos faz estar em contato. E assim vamos transformando nossa presença na cidade, criando relações que, se não fosse por esse canteiro, bem provável que não existiriam. Ou não existiriam com essa carga de afeto.

 

Falamos em transformar não apenas um lugar físico, mas uma percepção íntima do espaço público quando as pessoas nos vêem recolhendo um lixo que provoca asco em quem passa. E é justamente por não querer que as pessoas sintam asco que recolhemos o lixo. Ora, porque esperar dos outros a mudança de um lugar para melhor quando rapidamente podemos trazê-la à tona com as próprias mãos? Quantas centenas de limpezas já fizemos? Quantas centenas de interações com pessoas desconhecidas? Quantas relações criadas com pessoas solitárias, com problemas mentais ou em situação de rua? Quantos plantios? Quantas pinturas? Quantas  cercas? Quantas decorações para Natal, São João, ocupações coletivas? Incontáveis. Assim como são incontáveis, a cada encontro, as pessoas impactadas pelas ações.  Moradores dos prédios podem estar nos assistido de suas janelas. Motoristas dos carros que passam nas avenidas rapidamente nos observam. E, dessa forma, o canteiro vira um ponto de encontro de pessoas, olhares, percepções, e significados.

Por tudo isso, atrevo-me a dizer que a cidade não é mais a mesma desde que os Canteiros Coletivos existem. Atrevo-me a dizer que nossas ações provocam estranhamento, reflexões, alegria e curiosidade. Atrevo-me a dizer que inspiramos pessoas a replicar a ideia de ocupar espaços abandonados, e que sequer temos noção do tanto que isso já pode ter acontecido. Atrevo-me a dizer que todos esses estranhos e estranhas que compartilharam um tiquinho de suas vidas conosco levaram a seus conhecidos a mensagem de que um canteiro esquecido pode virar um jardim para chamar de seu. Atrevo-me a dizer que a energia reverberada de uma ação em um dia num canteiro como o do Canela podem atravessar fronteiras. E digo, com toda a propriedade, que a cada encontro, a cada ação, a cada plantio, a cada pintura, a cada limpeza, a cada piquenique que fazemos, saio transformada. Não há como ser a mesma pessoa. E não há como não enxergar a cidade de outro jeito. Ela é grande demais, e cheia de pessoas potentes de mais. E está tudo aí, ao nosso dispor. Vamos ocupar!

Débora Didonê, jornalista, permaculturora, jardineira e criadora dos Canteiros Coletivos