O canteiro laboratório do Vale do Canela

{ Diário de Anna Marsh }

A tragédia dos comuns: uma expressão invocada para descrever o fenômeno que ocorre quando indivíduos agem baseados em seu próprio interesse num mundo onde o espaço e os recursos são partilhados. Em outras palavras, é o que acontece quando se usa a lógica do “isso realmente não vai fazer diferença” quando alguém descarta uma embalagem de bombom num parque ou pesca em área proibida.

As consequências desta conduta foram devastadoras no Vale do Canela, onde os Canteiros Coletivos mantêm hoje um jardim surpreendentemente próspero. O espaço de mais ou menos 50 metros quadrados situado ao lado de uma avenida e entre alguns condomínios, é considerado o “laboratório” do movimento. Próximo ao antigo apartamento de Débora, o local pareceu um bom lugar para “plantar a semente” dos Canteiros. Mas antes de descobrir o que fazer com as pilhas e pilhas de lixo que cobriam aquele terreno, Débora e os voluntários fundadores dos Canteiros sequer podiam pensar em plantar.

Ao longo de quem sabe quantos anos, moradores e comerciantes locais descartaram o lixo no terreno, criando o que pode ser chamado de um pequeno aterro. Porque “a minha garrafa de água não vai fazer nenhuma diferença.”

Mas os Canteiros conseguiram separar a lixarada em quatro “montes” – madeira, plástico, metal, outros – e Débora e os voluntários finalmente puderam começar a plantar. A recuperação do espaço tornou-se completa com um dos murais do artista Thiago Nazareth na parede lateral – uma bela árvore cujos musgos reais serviram como folhagem — fazendo a arte e a natureza coexistirem no espaço.

Quatro anos mais tarde, o pequeno espaço ainda floresce. Débora, eu e outros voluntários que aderiram recentemente aos Canteiros, passamos as últimas semanas cuidando deste espaço (depois de uma pequena pausa de manutenção). Temos tirado muito lixo (um ou dois sacos por semana) e introduzido algumas mudas entre as mais velhas e resistentes.

O esforço dos Canteiros me lembra que enquanto priorizarmos nossos próprios interesses continuaremos contribuindo para a destruição do espaço público e o esgotamento dos recursos compartilhados. Ou seja,, a lógica inversa pode ser aplicada para fazermos coisas melhores.

Se todo mundo compreendesse que suas ações e contribuições fazem diferença no contexto do nosso planeta, é possível que a mudança climática não fosse a maior ameaça à segurança internacional. E os Canteiros Coletivos, atuantes no Vale do Canela e outros locais de Salvador, servem como exemplo do que poderia estar ocorrendo em uma escala maior.

**Diário de Anna Marsh é uma proposta de registro da voluntária norte-americana Anna Marsh, de 18 anos, que através de uma bolsa da Universidade de Princeton para realizar serviço social no Brasil apoia os Canteiros Coletivos de outubro de 2015 a maio de 2016.