Elisabeth, Maria José e Jean, três colaboradores de jardins coletivos em áreas periféricas. Três solidários à necessidade de isolamento pela saúde coletiva

Texto: Débora Didonê

Quando amanhece no Colégio Estadual Professora Marileine da Silva, na Mata Escura, a porta da cozinha é a mais procurada pelos estudantes. Os aromas já se manifestam por ali desde cedo, mas eles entram mesmo é para dar um cheiro na cozinheira. Elisabeth Helena de Souza Fonseca, de 64 anos, atua na escola há mais de 20. Pelo afeto trocado com a meninada, pode-se dizer que ela é um verdadeiro patrimônio. Com o riso largo e fácil, recebe cada jovem com uma resposta engraçada na ponta da língua para dar quando mexem com ela.

Poucos meses atrás, acolheu o projeto Escola Verde com Afeto de braços abertos em sua cozinha, quando se juntou à nossa nutricionista para preparar as delícias da oficina de Alimentação Saudável e do banquete servido à comunidade. Sua parceria e simpatia foram essenciais para a manhã maravilhosa de trocas que fizemos.

Neste exato momento, Elisabeth estaria em sua rotina amorosa na escola, se não fosse o cenário do coronavírus. Há pelo menos uma semana, ela não sai mais de casa. Nascida e criada no bairro de São Caetano, está seguindo os cuidados recomendados pelos órgãos públicos de saúde. Mora com o filho de 22 anos, que trabalha no Centro Administrativo da Bahia (CAB) e está iniciando as férias, e a filha de 36 anos, desempregada. Ambos estão em casa, e se precisam sair, ao voltar trocam e lavam as roupas, tomam banho e higienizam objetos levados para dentro de casa. A irmã e a prima, quase vizinhas, agora só conversam por telefone.

“Quando começou a história de não (poder) sair, tive medo. Tenho diabetes e pressão alta. Sempre há carros na rua dizendo para ficar em casa e fazer a higiene”, diz. Entre os vizinhos, poucos vão para a rua. “Só sai um que é motorista de ônibus, uma enfermeira, e a dona da loja de esquadrias. Mas a partir de segunda-feira, só mercado, padaria e farmácia vai poder abrir”, conta Elisabeth. Comer, fazer crochê, organizar a casa, ler a Bíblia e dormir são suas atividades diárias. “Eu tava tão nervosa, que não tava nem dormindo. Essas coisas assustam”, desabafa. Para Elisabeth, o mais importante agora é se cuidar e ficar em casa. Que em breve seu sorrisão volte a aquecer as manhãs de sua escola! 

Foto: Raphael Dutra Arte: Igor Queiroz

Originária de Coração de Maria, uma cidade baiana hoje com pouco mais de 20 mil habitantes, Maria José Ferreira da Paixão, de 77, chegou em Salvador aos 7. Filha de mãe solteira, foi babá dos irmãos, morou no Rio e em Brasília, até voltar à capital baiana. Hoje no bairro do Arenoso, cultiva um dos jardins mais incríveis do projeto Escola Verde com Afeto junto da amiga e xará Maria Raimunda. Na esquina de uma quadra desportiva e de uma escola pública, substituíram um ponto irregular de lixo por um verdadeiro quintal produtivo.

Todos os dias, às 8h, as Marias se juntam para cuidar da sua “roça”. “Às vezes, se estou magoada, chego nas plantas e parece que uma esponja passa no meu coração e me faz esquecer de tudo”, diz Maria José. Mas agora o jardim deixa saudades. Com a necessidade do distanciamento social em função do coronavírus, Maria José não pisou mais lá. “Raimunda ligou me chamando e se chateou porque não fui. Eu tinha que me guardar pela minha idade. Se médicos e enfermeiros dizem o tempo todo pra ficar em casa, por que vou sair?”, explica.

Mãe de três mulheres e um homem – falecido de AVC aos 53 anos -, Maria José tem dez netos, e já perdeu a conta de quantos bisnetos. Mora com a neta mais velha, e perto da filha caçula. “Minha filha ainda está indo trabalhar na Pituba, dia sim, dia não. Mesmo a patroa pagando um carro para buscar e trazer, o certo era ela ficar em casa”, diz. Sua “feira” por enquanto está garantida, afinal ela costuma fazer compras para o mês. E se precisar de algum tempero, a neta compra. Higienização dos alimentos Maria José sempre fez. “Agora, até comidas embaladas tem que lavar para botar no armário”, conta.

Sente muita falta do pastor, que permite no máximo cinco pessoas entrarem na igreja – mas não Maria José. “Se eu for, ele me puxa pela orelha e me traz pra casa”, conta aos risos. Sem os encontros de idosas e da ginástica, sua vida agora é a trilogia “costurar, organizar a casa e orar”. Mas mesmo angustiada por não saber quando vai poder pisar na rua, tem duas certezas. Uma, de que “lutar, criar filho e fazer tudo isso é muita coisa”. Duas, de que estamos chegando ao fim. “Tá na bíblia”. afirma com o riso solto e tranquilo.

Foto: Milena Abreu Arte: Igor Queiroz

 
 

Sabe aquele cara com quem você pode contar? Esse moço simpático é um deles. Sempre à disposição, com boa vontade, e cuidado. Jean Carlos Bispo dos Santos, de 34 anos, por seis anos foi agente de portaria terceirizado da Escola Municipal Sociedade Fraternal, no bairro de Pau da Lima, em Salvador. Quando iniciamos o projeto Escola Verde com Afeto, além de sempre ter o maior carinho com as crianças, Jean foi uma das pessoas que mais se conectou com o jardim criado no passeio em frente à escola. Ora dialogava com os motoristas-jardineiros parceiros para monitorar as plantas, ora regava o jardim com a meninada. Há alguns meses, infelizmente Jean saiu da escola. Mas continuamos conectados, e fazemos questão de registrar sua participação preciosa no projeto.

Casado, pai de três filhos – Caio de 13 anos, Caíque, de 10, e Cauê, de 5 – e morador do conjunto habitacional Coração de Maria, um residencial com mil apartamentos do Programa Minha Casa Minha localizado no Cassange, Jean já trabalhou em construção civil, em supermercado, foi segurança, e antes da necessidade do distanciamento social, fazia entregas de tortas da tia, ou vendia óleo de cacau na praia. Está conseguindo ficar em casa graças ao seguro desemprego e ao Bolsa Família. “Tenho duas semanas sem sair. Tenho medo de trazer esse negócio pra dentro de casa”, declara Jean, referindo-se ao coronavírus.

Em seu condomínio, às vezes falta água, mas uma vizinha compartilha com quem não tem. “Ficamos quase três dias sem. Andei cerca de um quilômetro, indo e voltando mais de dez vezes por dia, para buscar na vizinha que tem dois tanques. Umas cinco famílias pegaram água com ela”, conta. A solidariedade não parou por aí. “O álcool em gel eu consegui uma vizinha que é cuidadora de idosos em um hospital”, diz.

Enquanto ele fala ao telefone, dá para ouvir os meninos brincando ao fundo, e um deles pergunta: “Pai, o que tanto você fala no telefone?”. Para Jean, o lado bom desse cenário é estar com a família em casa. “Tem gente que nem conversava com os parentes, e isso tá servindo pra gente estar mais unida”, diz. Quando puder sair de novo, seu maior desejo é pegar uma praia com os meninos. Que seja em breve, Jean!

Foto: Raphael Dutra Arte: Igor Queiroz