O enterro da praça no Dois de Fevereiro

Imagine uma praça de frente para o mar da qual, ao fim do dia, se vê um pôr-do-sol de cinema. Uma praça arborizada, com sombra e bancos para que as pessoas possam relaxar, com lixeiras distribuídas pelo espaço, com plantas de todos os tamanhos, frutíferas e floridas, com espaço para estacionar bicicletas e com brinquedos de madeira para as crianças… Uma praça que possa virar ponto de encontro de festas populares, recebendo barraquinhas de artesanato e comida, e na qual as pessoas possam esticar uma linda toalha e se sentar com a família e os amigos.

Esse poderia ser o cenário da pracinha do Rio Vermelho, localizada ao lado da Paróquia Sant’Anna, na qual os Canteiros Coletivos fazem intervenção desde dezembro de 2012 em parceria com o projeto Bairro-Escola Rio Vermelho, da organização da sociedade civil Cipó – Comunicação Interativa. Carinhosamente, ao longo das atividades, um grupo de admiradores do espaço resolveu batizá-la de Praça do Pôr-do-Sol, simplesmente porque ela proporciona um dos fins de tarde mais bonitos da cidade.

Porém, atualmente, o que se vê ali são dois coqueiros adultos, uma algodoeira filhote, cinco bancos – dos quais nenhum fica à sombra dos coqueiros – e grama. À noite, principalmente aos fins de semana, esse cenário é coberto por muitos carros. Em dias de festa, por lixo, sacos de mantimentos, uma fila de banheiros (que, aliás, fica exatamente no local onde há vista para o mar), estacionamento de carro de TV, terreno de posto de polícia militar.

Ainda no ano de 2012, o Bairro-Escola conseguiu com a então Secretaria Municipal do Meio Ambiente a doação de 10 mudas de algodoeiras de praia e, em conjunto com Pedro Moraes, participante dos Canteiros Coletivos, funcionários da prefeitura instalaram as mudas ao redor da praça, de forma que não fossem arrancadas pelos flanelinhas que já naquela época cuidavam dos automóveis sobre a praça, principalmente na hora da boemia local. Pouco tempo depois duas mudas de bacuparis, uma frutífera nortista, foram doadas pela Secretaria Cidade Sustentável e plantadas também pelo movimento junto das algodoeiras.

A partir de então, nasceu a esperança de que em breve essas plantas evoluiriam para que a praça tivesse uma boa sombra e permitiriam que as pessoas se sentassem nos bancos e usufruíssem da praça sem que se sentissem em uma frigideira. Mas desde meados de 2013, e principalmente durante o ano de 2014, aos poucos as mudas de algodoeiras apareciam quebradas, machucadas, até que foram desaparecendo totalmente. Apenas uma delas sobreviveu (a que foi citada nos parágrafos acima junto dos coqueiros). Mas nem ela pôde ser conferida durante a Festa de Iemanjá deste ano, já que ficou do lado de dentro de uma cerca improvisada de metal colocada ao redor de um carro de TV que ocupou boa parte da praça.

Os cuidados com essas algodoeiras envolveram muitas pessoas e energia. Foram feitas manutenções de jardinagem, instalação de cercas, adubação, compra coletiva de mangueira nas redes sociais, rodízio de rega com voluntários (principalmente em 2012, que foi ano de seca em Salvador) e utilização de bons litros d’água da Paróquia. As algodoeiras também enriqueceram o cenário dos festivais organizados pelo Bairro-Escola, atraindo estudantes e curiosos para saber como funcionavam as intervenções dos Canteiros Coletivos. E os próprios festivais deram à praça uma função cultural e de lazer, como ela merece ser tratada.

Mas, mesmo diante de tantos esforços, um dos apoios de que mais precisávamos da prefeitura – o impedimento do estacionamento de carros sobre a praça – nunca foi levado adiante. Mesmo isso tendo sido colocado em reuniões do Bairro-Escola e em conversas com secretários. Pior. a gestão municipal, que poderia contar com uma movimentação tão orgânica e viva para cuidar de uma praça central, localizada em bairro turístico, foi a mesma que (sub)utilizou esse local como  “banheiro público, estacionamento e posto policial” nos festejos de Iemanjá.

Quando chegamos à praça, às 9h do dia Dois de Fevereiro, prontos para pendurar uma faixa que provocasse os passantes da Festa de Iemanjá com a afirmação “Ei, isso é uma praça!”, a mesma gestão municipal que deveria nos apoiar com a recuperação desse espaço mandou um “fiscal” que pediu à sua “equipe” para arrancar a faixa porque era proibida pela lei – de número que ele não sabia especificar. Mas o fiscal não questionou o lixo, o banheiro, o estacionamento sobre a grama. Lembrando que nos espaços verdes em que as pessoas caminham existem placas dizendo “proibido pisar na grama”. Dá pra entender? Carro pode.

De toda forma, continuamos nossa ação. Nesse dia de Iemanjá decidimos, além da faixa, instalar cruzes que simbolizassem as árvores que havíamos plantado em 2012 e que foram arrancadas ao longo dos dois últimos anos por pura falta de participação popular e, principalmente, falta de compromisso dos órgãos públicos com as propostas e os desejos da população com relação à praça. Com parceria também do Curiar – Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo da UFBA, aplicamos ainda algumas folhas com dizeres sobre o que já havia sido feito na praça desde que decidimos ocupá-la. E Thiago Nazareth, dos Canteiros Coletivos, renovou algumas pinturas nos bancos, que contavam com uma bonita arte, dando identidade e alegria ao espaço, mas que levaram uma “misteriosa” tinta azul em cima tempos depois.

A faixa, que foi bruscamente retirada pelo fiscal e seus comparsas, em seguida foi colocada em frente aos isopores de bebidas, em parceria com as vendedoras que gritavam: “Olha o enterro da praça! A praça morreu”. Participaram de maneira divertida e criativa da intervenção, e depois toparam fazer a foto do enterro ao lado das cruzes. Foi uma forma de envolver pessoas que nem sabiam da história da praça e que, com certeza, passaram a vê-la com mais cuidado.

Essa praça aguarda por uma intervenção da prefeitura muito em breve, dentro do projeto de recuperação da orla que tem pipocado em alguns jornais desde o ano passado. Nosso desejo é que os moradores locais e os movimentos envolvidos com as intervenções da praça sejam ouvidos e respeitados quanto a seus anseios nas transformações desse espaço. E que isso seja feito respeitando a identidade local. Sem contar os carros. Ai, esses carros. Que eles saiam da calçada. E da grama. Por favor.