Canteiros Coletivos: um sentimento

Por Débora Didonê

Os Canteiros Coletivos atuam com resistência desde seu início, replantando mudas retiradas ou roubadas. Esse problema nunca mais se repetiu me nenhum espaço de ação permanente porque se conquistou o respeito de moradores e comerciantes locais. Esse resultado é essencial para que compreendamos o processo de recuperação e transformação de áreas verdes públicas, especialmente as que não tinham um olhar significativo da gestão municipal. O que mais nos afeta hoje não são vândalos, e sim legislações que deixam as árvores e áreas verdes em um patamar menos importante para a cidade do que avenidas, prédios e placas de outdoor.

É brigar pela mudança desse contexto que me faz Canteiros Coletivos. Sou apaixonada pela causa de garantir o Direito à Cidade, o direito às áreas verdes, o plantio de resistência que muda a concepção de muita gente que nunca plantou nada na rua, o plantio em espaços que muitas vezes parecem não fazer sentido, mas que mexem com os sentidos. As plantas transformam e ressignificam espaços. E mais que isso, criam vínculos de afeto com locais inesperados, e em consequência, propõem um olhar diferenciado para certos lugares, e a necessidade de influir na mudança de legislações que desprotegem árvores e áreas verdes. Desde seu início, o movimento se compreende como um porta voz do direito à cidade. Mas podemos falar de direito sem ser chatos, podemos falar de direitos plantando e ocupando espaços, ressignificando espaços, fazendo arte urbana. Isso está latente em cada ação de plantio, de ocupação cultural, de contato com estes pequenos e aparentemente medíocres espaços.

Um local que poderia ser menos, pode ser mais. Um local que poderia ser lixo, pode ser verde. Um local que poderia ser nada, pode ser tudo.

Os Canteiros também querem provocar olhares, desafiar paradigmas, causar desconfortos. Mexer em espaços até então “inemexíveis” faz muita gente se perguntar: Por quê? Pra quê?

O que teria sido essa área do Gantois se chegássemos antes do tão importante outdoor? O outdoor chegou primeiro e conquistou seu direito à cidade de precisar ser mais visto que as árvores. Então, cada espaço considerado menos importante e significativo pela população é visto com grande interesse pela iniciativa privada.

Que tal arrancar as plantas do canteiro do Canela para colocar um outdoor no local, já que ele é um espaço tão pouco útil pra gente? Que tal cimentar tudo ali e transformar em estacionamento? Um pedaço de terra é sempre um pedaço de terra. Se não nos sensibilizamos pelas ocupações das áreas públicas de que dispomos, podemos entregá-los de bandeja a quem possa usá-los para benefício próprio.

Plantar e pintar nas ruas, acessar comunidades, mobilizar pessoas, articular com poder público, conseguir parcerias em ações, dialogar com coletivos, aprofundar o entendimento de uma comunidade, compreender as transformações pelas quais um só espaço público pode passar em meses e todas as pessoas envolvidas nesse processo… Tudo isso é Canteiros Coletivos.

Plantio de algodoeiras (2012)

Plantio de algodoeiras (2012)

Essa convicção de que podemos ter uma cidade sem lugares desnecessários é o que me faz ser Canteiros Coletivos. Não acredito em lugares desnecessários, acredito em lugares que se tornem necessários através da transformação coletiva.

Eu gosto, me sinto feliz e realizada quando as pessoas dizem que eu, Débora, sou Canteiros Coletivos. E sou mesmo! Com orgulho! Com os Canteiros aprendo a cada dia a estar na cidade e olhar a cidade de outro jeito. Me sinto parte do que está bom e também do que não está.

Me sinto provocada a pensar em como poderiam ser esses cantos sujos e esquecidos se alguém cuidasse deles. Me sinto impulsionada em aprender a ler uma comunidade que, sim, tem necessidade de mudanças, mas não conseguiu ainda acender essa chama de se achar capaz de transformar seu próprio bairro fazendo seu vasinho de planta. Cada ação, cada memória dos Canteiros me emociona. Criar vínculos com uma comunidade me emociona. Esse vínculo, mais do que as plantas, me faz querer ajudar a cuidar do Gantois. Eu sou feliz nessas ações e dou todo meu amor para cada minuto que dedico ao movimento. Acho que é por isso que ouço que eu sou os Canteiros. Mas tenho toda a consciência da rede imensa que se forma ao redor dessa mesma causa, que me faz ser Canteiros. Eu sou porque escolhi ser. E outras pessoas podem escolher também, talvez tenham escolhido com menos convicção do que eu. E está tudo bem. Só acho que isso de “ser Canteiros” não aconteceu comigo de repente, mas foi resultado de uma longa caminhada de participação e criação contínua de ações, e de uma preocupação imensa em não gerar expectativas que não pudessem ser atendidas, e de não descuidar de manter saudáveis articulações, apoios e parcerias. Tratar cada apoio, por menor que pareça, com cuidado e compromisso, estar presente quando dissesse que estaria presente. Isso tudo me faz Canteiros. Não penso, de forma alguma, que só eu posso ser. Eu escolhi ser. E meu maior prazer é compartilhar essa ideia de ser Canteiros com outras pessoas que também queiram. Tenho feito isso desde então, desde que “encanteireime”. Se fiz bom ou ruim, se certo ou errado, não sei. Mas sou movida a Canteiros, e acho que não tenho mais como voltar atrás…